Nova pagina |
Sem resumo de edição |
||
| Linha 7: | Linha 7: | ||
De facto, o triunfo do Escotismo fez com que uma actividade, de certo modo apagada, viesse a ganhar foros de uma das efemérides de maior relevância deste movimento mundial. Tivesse alguém suspeitado da evolução que esse evento havia de tomar, e não faltariam, por certo, legiões de repórteres para lhes fixar as imagens mais salientes, que hoje seriam de valor incalculável. | De facto, o triunfo do Escotismo fez com que uma actividade, de certo modo apagada, viesse a ganhar foros de uma das efemérides de maior relevância deste movimento mundial. Tivesse alguém suspeitado da evolução que esse evento havia de tomar, e não faltariam, por certo, legiões de repórteres para lhes fixar as imagens mais salientes, que hoje seriam de valor incalculável. | ||
''É este mesmo pensamento que Lord Rowallan exprime no prefácio de um livro há três décadas publicado em Inglaterra, da autoria de um dos mais íntimos colaboradores de B.-P.,'' ''Sir Percy Everett, um dos homens de Brownsea. No prefácio deste volume, que é intitulado '''«Os Primeiros Dez Anos»''' e em que se historiam os primórdios e o florescimento do Escotismo, diz Rowallan: «É sempre interessante conhecer como nasceu uma ideia; e quando essa ideia se expandiu através do mundo, tal como o Escotismo, os seus primeiros dias assumem uma importância histórica».'' | ''É este mesmo pensamento que Lord Rowallan exprime no prefácio de um livro há três décadas publicado em Inglaterra, da autoria de um dos mais íntimos colaboradores de B.-P.,'' ''Sir [[Percy Everett]], um dos homens de Brownsea. No prefácio deste volume, que é intitulado '''«Os Primeiros Dez Anos»''' e em que se historiam os primórdios e o florescimento do Escotismo, diz Rowallan: «É sempre interessante conhecer como nasceu uma ideia; e quando essa ideia se expandiu através do mundo, tal como o Escotismo, os seus primeiros dias assumem uma importância histórica».'' | ||
São, por esse motivo, de valor inestimável, e tanto mais quanto é restrito o número dos que existem, os relatos que chegaram até hoje, feitos por quem pôde tomar parte nesse sucesso que teve a Ilha de Brownsea por palco, privilégio de que Everett foi um dos fruidores. | São, por esse motivo, de valor inestimável, e tanto mais quanto é restrito o número dos que existem, os relatos que chegaram até hoje, feitos por quem pôde tomar parte nesse sucesso que teve a Ilha de Brownsea por palco, privilégio de que Everett foi um dos fruidores. | ||
Edição atual tal como às 21h20min de 8 de novembro de 2025
Artigo da Revista Sempre Pronto, ed. março/abril 1976, Portugal:
O Escotismo antes de Brownsea (grafia original pt de Portugal)
Quando Baden-Powell, na companhia dos seus colaboradores e daquelas duas dezenas de rapazes, partiu um dia para a Ilha de Brownsea, não previu, com certeza, que se iam tornar os protagonistas de um dos momentos cruciais desse movimento que, ao tomar forma e ganhar justificado prestígio, acabaria por se estender a todo o mundo, atrair milhões de rapazes, transformando-se, assim, num dos mais famosos métodos educativos da nossa era.
De facto, o triunfo do Escotismo fez com que uma actividade, de certo modo apagada, viesse a ganhar foros de uma das efemérides de maior relevância deste movimento mundial. Tivesse alguém suspeitado da evolução que esse evento havia de tomar, e não faltariam, por certo, legiões de repórteres para lhes fixar as imagens mais salientes, que hoje seriam de valor incalculável.
É este mesmo pensamento que Lord Rowallan exprime no prefácio de um livro há três décadas publicado em Inglaterra, da autoria de um dos mais íntimos colaboradores de B.-P., Sir Percy Everett, um dos homens de Brownsea. No prefácio deste volume, que é intitulado «Os Primeiros Dez Anos» e em que se historiam os primórdios e o florescimento do Escotismo, diz Rowallan: «É sempre interessante conhecer como nasceu uma ideia; e quando essa ideia se expandiu através do mundo, tal como o Escotismo, os seus primeiros dias assumem uma importância histórica».
São, por esse motivo, de valor inestimável, e tanto mais quanto é restrito o número dos que existem, os relatos que chegaram até hoje, feitos por quem pôde tomar parte nesse sucesso que teve a Ilha de Brownsea por palco, privilégio de que Everett foi um dos fruidores.
A amizade entre este valoroso dirigente escotista e B.-P. remonta a 1906, quando ambos se encontraram, como convidados de Sir Arthur Pearson, num party de fim-de-semana, realizado numa das suas propriedades no Surrey. Everett explica assim o motivo da sua própria presença:
«Eu fora ali, em parte como amigo da família, em parte porque estava há vários anos associado ao sector da actividade editorial de Sir Arthur Pearson».
Porém, com respeito à ida de B.-P. àquela casa, Everett refere:
«O Chefe estava ali porque Pearson gostava de convidar para as suas festas de fim-de-semana homens em evidência na vida social no mundo. Nesse tempo, Pearson ocupava importante posição na arena politica. Era o conselheiro da confiança de Joseph Chamberlain, que então defendia com denodo a importância vital da reforma das pautas aduaneiras.
«Não vou discutir política, mas estou absolutamente convencido de que, quanto ao Chefe, Pearson não tinha qualquer designio de natureza política. Ambos estavam satisfeitos por se encontrarem, visto ambos manifestarem profundo interesse pelo estudo dos problemas dos seus concidadãos, em especial no que concerne à gente nova, campo onde qualquer deles ocupava importante posição no mundo. Por isso, foi grande o contentamento que sentiram por terem a oportunidade de trocar pontos de vista sobre o assunto. «Há anos que Pearson lutava por realizar um projecto que desse às crian- ças pobres das grandes cidades a possi- bilidade de passarem férias longe das ruas apinhadas de pessoas. A esse pro- jecto foi dado o nome de Fundação Pearson do Ar Livre, que ainda hoje desenvolve grande actividade.
«As atenções do Chefe também se centravam na juventude, pois nessa altura metera mãos ao trabalho de dar forma, a pouco e pouco, a esse extraordinário e maravilhoso plano que seria oferecido ao mundo sob o nome de Scouting for Boys. Os dois tinham, por isso, muitos objectivos comuns».
Esta narrativa de Everett faz-nos algumas revelações de importância. Em primeiro lugar, assistimos ao estabelemento dos contactos entre B.-P., Pearson e Everett, personalidades que viriam a desempenhar papel de relevo no Escotismo. E. E. Reynolds, biógrafo de B.-P., registra que, a partir desse primeiro encontro, Everett se tornou o braço direito do Chefe, em matéria de organização. Era a Everett que B.-P. recorria com frequência para ouvir o seu avisado conselho e opinião sobre algum novo projecto que lhe acudisse à mente. Everett ficaria para sempre estreitamente ligado ao Escotismo. Vê-lo-íamos já em Brownsea entre os dirigentes em que o Fundador se apoiava e a quem dedicava especial afeição.
Aquando da publicação do Scouting for Boys, Everett prestou a B.-P. colaboração excepcional na resolução de vários problemas editoriais.
Quanto a Pearson, foi de enorme importância o papel por ele desempenhado durante o período em que o movimento despontava. A intuição de B.-P., permitiu-lhe descobrir em Pearson qualidades que o recomendavam como elemento qualificado para intervir no arranque e lançamento do sistema educativo que o entusiasta general inglês começava por aqueles tempos a delinear.
Foi durante o party a que acima nos referimos que o Fundador logrou obter a colaboração de Pearson para levar por diante os projectos do movimento de juventude a que desejava dar realidade. Dessas diligências, dá-nos Everett o seguinte curioso relato:
«Enquanto os convidados se divertiam, discretamente o anfitrião prepaparava-se para se retirar. B.-P., que passava perto do carro que aguardava Pearson, interpelou-o quando este apareceu:
«-Onde vai, Pearson?
«<- Vou visitar um lar de diminuídos fisicamente. Não me vou demorar.
«Enquanto o carro se afastava, B.-P. ali ficou, pensativo. Eis o que lhe passou pela mente:
«-Aqui está o homem que me pode auxiliar: gosta de crianças, é um organizador por excelência, possui um grande jornal. Conhece a melhor forma de lançar minha iniciativa.
«Ao serão, após o jantar, o Chefe conversou connosco acerca da sua própria infância, das suas experiências com o grupo constituído com seus irmãos, do espléndido trabalho realizado pelos rapazes em Mafeking, do êxito alcançado pelo seu livro Aids to Scouting. Acabou por apontar a necessidade de ser criada uma ocupação que atraísse os rapazes durante os tempos deixados livres pela escola.
«- Hoje em dia- disse ele-há mais de um milhão de rapazes no país que estão fora do alcance de qualquer boa influência. São empurrados, muitas vezes, para antros de preversão, à espera que se lhes estenda a mão.
«Pediu, então, a Pearson que o ajudasse. Este ficou deveras impressionado. Estávamos todos ali. O resto do fim-de- -semana passou-se, em grande parte, a tentar achar a melhor forma de lançar o plano do Chefe. Pearson estava pos- suído do maior entusiasmo. Era um organizador nato e estava sempre disposto a andar para diante. Mas o Chefe era mais cauteloso e queria estar seguro do terreno que pisava. Por isso, manifestou o desejo de explicar melhor o seu es- quema diante de dirigentes de outras organizações de juventude e tentar a colaboração de membros proeminentes da Igreja, do Estado e das Forças Ar- madas, dos quais escutaria os pontos de vista. Além disso, estava particularmente ansioso por testar as suas próprias teo- rias no campo da prática.
«Para dar concretização à primeira sugestão do Chefe, foi preparado o ras- cunho de uma carta que ele iria enviar às personalidades em maior destaque, carta que viria a obter o melhor acolhi- mento por parte dessas pessoas. Tal facto deu a B.-P. o estímulo necessário para, finalmente, meter ombros à sua notável iniciativa ».
É ainda do livro de Everett que respigamos uma curta passagem de um dos numerosos diálogos havidos entre B.-P. e Pearson, acerca dos problemas relacionados com a organização do movimento:
Pearson: «Devemos arranjar um nome interessante, um nome que possa atrair o rapaz...»
B.-P.: «- Claro! Não seria uma boa ideia chamar ao movimento «Sociedade para a Propagação de Atributos Morais».
Pearson: «Qua! é o nome do livro de que você me tem falado, escrito enquanto esteve no exército?»
B.-P.: «-Refere-se ao Aids to Scouting?»>
Pearson: «- Exactamente. Porque não aproveitar a palavra Scouting? Há muito romantismo e aventura nesse termo... >>
B.-P.: «Tem razão. O nome de Boy Scouts vai despertar a atenção, estou disso convencido...»
E Everett comenta:
«Assim o movimento se tornou o Boy Scouts Movement e o livro do Chefe, quando foi escrito, se chamou Scouting for Boys».
Desta maneira, surgiu a palavra que, ao longo deste século, seria pronunciada por milhões e milhões de jovens, pois sobre eles iria exercer um sortilégio só compreensível pelo complexo de actividades que ela viria a identificar.
São estes os curiosos eventos que se destacam da história do nosso Movimento antes da partida para a Ilha de Brownsea.
Saber Mais
The First Ten years, Percy Everett, 1948 - 88 páginas. Livro Disponível no Acervo Carajás.