Mário Cardim

Fundador da Associação Brasileira de Escoteiro (ABE) em 1914. Jogador de futebol, advogado, educador, dirigente esportivo, político e ainda primeiro jornalista esportivo especializado em futebol me São Paulo. Foi o último presidente da Liga Paulista de Futebol. Nasceu no Rio de Janeiro em 09/09/1888 e faleceu na mesma cidade em 05/12/1953 aos 65 anos. Agraciado com o Tapir de Prata em 1936, mais alta condecoração dos Escoteiros do Brasil.

Família

Nascido no Rio de Janeiro mudou-se para São Paulo ainda criança, por causa do trabalho do pai, o juiz Antônio Saturnino Cardim.

Futebol

Jogou por pouco tempo no 2º quadro do Sport Club Internacional, clube que deixou para participar da fundação do Club Athletico Paulistano em 1900. Foi árbitro e dirigente da Liga Paulista de Futebol, a primeira federação de futebol do Brasil, tendo grande influência no futebol paulista e brasileiro do início do futebol até os anos de 1920 e também foi secretário-geral do Club Athletico Paulistano em 1916-1926. Paralelamente à carreira de dirigente esportivo foi delegado de polícia, diplomata e chefe de gabinete de Antônio Prado Júnior quando este ocupou a prefeitura do Rio de Janeiro em 1926-1930.

Jornalista

Em 1903 começou a trabalhar como redator no jornal O Estado de São Paulo. Formou-se em 1906 pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Pode ser considerado o primeiro jornalista a escrever sobre o futebol em São Paulo e autor do primeiro livro: "Guia do foot-ball" de 1903, que além da tradução das regras, trazia ainda um texto sobre a história do futebol na Inglaterra, o texto “A arte de dar um kick”, de C.B. Fry e instruções ao árbitro sobre o jogo e orientações sobre o impedimento.

Escotismo

Sempre foi ligado à educação, foi um dos introdutores do escotismo no Brasil, tendo recebido as orientações diretamente de Baden-Powell e fundou em Associação Brasileira de Escoteiros em 29/11/1914.

Em 1910, um brasileiro em missão do governo federal ao passar pela cidade holandesa de Delft, perto de um cruzamento ferroviário, deparou-se com um curioso grupo de 20 crianças uniformizadas. Aproximando-se para se informar melhor, descobriu que eram escoteiros franceses e obteve deles um folheto explicativo. O nome deste brasileiro era Mário Sérgio Cardim e o interesse que esse acontecimento despertou nele foi tão grande que imediatamente ele se dirigiu à Inglaterra e, em companhia do Diplomata Régis de Oliveira, foi à casa de Baden-Powell, com quem conversaram sobre o escotismo. Cardim ficou na Inglaterra de 1º de junho a quatro de julho e participou de um curso com palestras do Baden-Powell.

Fundação da ABE

Após voltar ao Brasil, ele se dedicou à divulgação do escotismo em São Paulo de dezembro de 1913 a junho de 1914, proferindo 18 conferências em 18 cidades, além de conseguir o apoio entusiástico de JúlioCésar Ferreira de Mesquita, diretor do jornal “O Estado de São Paulo”. Também foi divulgada uma série de artigos neste periódico e formou-se a comissão provisória composta, além de Cardim, pelo Prof. Alcântara Machado e o Dr. Ascânio Cerqueira. Em 15 de agosto Cerqueira realizou a reunião preparatória para a fundação da Associação Brasileira de Escoteiros – ABE, quando foram indicados os primeiros monitores e designada a comissão encarregada de elaborar o anteprojeto do estatuto. Paralelamente, a campanha de divulgação surtia efeito, pois na fundação da ABE já havia 600 escoteiros inscritos. Ainda em 1914, foi publicado o “Esquema de Organização Técnica”, enviado a todas as partes do estado e do país. Assim, o movimento escoteiro conquistava cada vez mais jovens no Estado de São Paulo.

Finalmente, em 29 de novembro de 1914 foi realizada a cerimônia de fundação da Associação Brasileira de Escoteiros, no “Skating Palace”, na Praça da República, nº 59, das 14h às 17h. Nessa ocasião, com a presença de 450 escoteiros, foram aprovados os estatutos e eleito o Conselho Superior com mandamento até 1919, constituído por aproximadamente 25 membros. Mais tarde, esse conselho se reuniu e elegeu a diretoria, sendo o primeiro Presidente o Dr. José Carlos de Macedo Soares.

Sede da ABE

Inicialmente a sede da ABE foi instalada na Rua São Bento, nº 61. Depois mudou-se para a Rua Formosa, nº10. Simultaneamente, o trabalho continuava e, em 15 de novembro de 1915, mil escoteiros realizaram as primeiras Promessas Escoteiras no Prado da Moóca, assistidos por 15.000 pessoas.

Escotismo Feminino no Brasil

Paralelamente, também sob a inspiração de Mário Cardim, era organizado o Escotismo Feminino (não confundir com o Movimento Bandeirante (Girl Guides) surgiu posteriormente - era baseado nos mesmos princípios, e por bastante tempo os dois existiram simultaneamente). Em 15 de janeiro 1915, na residência da Sra. Kathleen Crompton, posteriormente Instrutora Chefe, iniciava-se a Associação Brasileira de Escoteiras, sob a direção do Dr. Orlando Meira e tendo a D. Maria Guedes como Patrona. Em 1916 era realizado no Parque Antárctica o primeiro compromisso das Escoteiras.

Crescimento da ABE

Em 1915, a ABE já tinha representante em seis estados, sendo que no Rio de Janeiro foi iniciado o escotismo no Fluminense F.C. Ainda neste mesmo ano, em 1º de setembro, Mário Cardim realizou uma viagem à então Capital Federal em companhia de quatro escoteiros uniformizados, na qual foram recebidos pelo Presidente da República, Venceslau Brás e pelos ministros. Eles visitaram os principais jornais e aproveitaram para divulgar a ABE.

Em 1916 foi organizada a primeira Escola de Chefes sob a direção do Ten.Cel. Pedro Dias de Campos da Força Pública do Estado de São Paulo. Ele foi figura fundamental nesses primeiros dias e por muito tempo permaneceu na direção do escotismo da ABE. Também merece destaque Benevenuto Cellini dos Santos, autor do “Ementário de Escoteiros”, livro de instrução técnica para escoteiros, e da letra de “Rataplan do Arrebol”, hino da ABE e, posteriormente, da União dos Escoteiros do Brasil – UEB.

Em 11 de junho de 1917, por iniciativa do Deputado César Lacerda de Vergueiro, a ABE foi reconhecida pelo Congresso Nacional, pelo Decreto Legislativo nº 3.297.

Foto 1: Inauguração da nova sede dos escoteiros da Escola Prudente de Moraes (15/12/1928). O 5º, da esquerda para direita, é Fernando Azevedo; o 7º, é Mário Cardim (de terno claro) ao lado de Maria Loreto Machado (professora e inspetora escolar).

Tradutor de "Escoteiro" e "Sempre Alerta"

Ainda sobre Mário Cardim, foi ele quem traduziu o lema “Be Prepared” para “Sempre Alerta”, e o termo “Scout” para “Escoteiro”. Em 13 de dezembro de 1947 ele recebeu o título de “Fundador do Escotismo Masculino e Feminino no Brasil” em cerimônia organizada por alguns dos primeiros escoteiros participantes do movimento. Além disso, ele foi um dos primeiros a portar o “Tapir de Prata” e a ter sido agradecido com a Ordem do Império Britânico.

O movimento expandiu-se bastante, tanto que na década de 1920 chegou a haver cerca de 100.000 escoteiros. Logo após a I Guerra Mundial, foi notável a ação dos escoteiros prestando serviços auxiliares durante o surto de gripe espanhola, que vitimou milhares de pessoas no estado de São Paulo; em janeiro de 1921, começou a ser publicado “O Escoteiro”, informativo da ABE que tinha a cada edição uma média de 30 paginas. Em 1922 foi realizada uma homenagem ao Centenário da Independência nos campos do Ipiranga com presença de dez mil escoteiros.